Após os devastadores terremotos que atingiram a Venezuela em junho, Jorge Bastidas, um programador venezuelano que reside na Argentina, se viu em uma situação angustiante. Enquanto tentava contatar sua família, as ligações não completavam e a incerteza aumentava. A falta de comunicação em um momento tão crítico fez com que Bastidas decidisse agir de forma inovadora, criando a plataforma “Desaparecidos Terremoto Venezuela”.
O portal, que surgiu como uma resposta às necessidades urgentes de milhares de pessoas, permitiu que familiares registrassem desaparecimentos e buscassem informações sobre seus entes queridos. Desde sua criação, a plataforma recebeu impressionantes 82.610 registros, dos quais 29.486 pessoas ainda permanecem sem contato. Essa situação é ainda mais alarmante considerando que o governo da Venezuela não disponibilizou uma lista oficial de desaparecidos, deixando a população sem um recurso vital para buscar informações.
Bastidas expressa sua indignação com a inércia do governo, que, segundo ele, possui os recursos necessários para lidar com a situação, mas falha em fornecer dados confiáveis. A resposta oficial foi escassa, e enquanto o governo se mostrava relutante em se comprometer com números, a população buscava alternativas para encontrar seus entes queridos.
A plataforma não apenas registrou desaparecidos, mas também incorporou tecnologia de ponta, utilizando inteligência artificial para otimizar o processo. Com apenas quatro horas e meia após os tremores, Bastidas já havia lançado o site, que inicialmente incluía um formulário simples para que as pessoas pudessem registrar informações sobre os desaparecidos. A utilização de IA foi crucial para gerenciar o volume de dados e moderar o conteúdo, especialmente diante de tentativas de deslegitimar a plataforma com informações irrelevantes.
Além disso, uma colaboração com a LAB-CO introduziu uma ferramenta de reconhecimento facial, aumentando as chances de localizar pessoas desaparecidas, especialmente em hospitais que estavam sobrecarregados com informações. Esta inovação foi bem recebida, tendo atraído cerca de 19 mil usuários nas primeiras semanas.
Enquanto Bastidas e sua equipe enfrentavam desafios técnicos e ataques à plataforma, voluntários, como a advogada Daneli Hernández, se uniram para buscar informações diretamente nos hospitais, transcrevendo listas de pacientes e cruzando dados para ajudar a identificar desaparecidos. A dedicação de todos os envolvidos é um testemunho do espírito de solidariedade que se manifesta em tempos de crise.
Embora muitos tenham encontrado conforto ao registrar seus entes queridos na plataforma, a luta de Bastidas não termina aí. Com a intenção de ampliar a capacidade de verificação e comunicação, ele planeja estabelecer uma central de atendimento para confirmar os dados dos desaparecidos. Para ele, a ação da sociedade civil é fundamental, especialmente quando a resposta do Estado é insuficiente. “Não deveríamos esperar pelo Estado para agir”, afirma, demonstrando um compromisso inabalável em buscar soluções em meio ao caos.




